19 setembro de 2014 Artigos Nenhum comentário

Por Hélcio de Castro Padrão – Consultor de Desenvolvimento Humano e Organizacional

     A destruição do nosso planeta, que tanto se agravou nestas últimas décadas, tem uma profunda relação com uma visão da dualidade, de separação que domina nossa sociedade. Quando não somos capazes de perceber que estamos relacionados ou unidos a todas as coisas, tendemos a uma visão individualista e, tudo que não sou “eu” torna-se descartável, ou melhor, eu posso utilizar para o meu proveito e depois simplesmente jogo fora, quando não mais me servir! O que importa é que satisfaça minhas “necessidades” e que me dê “prazer”.

     O sistema econômico predominante ainda segue a idéia de Adam Smith que afirmou: “Assim, o mercador ou comerciante, movido apenas pelo seu próprio interesse egoísta (self-interest), é levado por uma mão invisível a promover algo que nunca fez parte do interesse dele: o bem-estar da sociedade.” Segundo sua maneira de pensar o egoísmo seria a única forma de promover o desenvolvimento econômico e social – embora hoje possamos afirmar que esta teoria estava completamente equivocada, pois o bem estar social simplesmente não aconteceu.

     Dentro deste princípio, nas organizações, muitas pessoas acreditam que a competição é única forma de estimular a produtividade. Analisando as partes isso pode até parecer fazer sentido, porque algumas pessoas (uma minoria) realmente se destacam quando comparadas com outras ou competindo. Mas quando observarmos o sistema como um todo – e toda organização é um sistema – o egoísmo e a busca compulsiva pelo interesse próprio criam um sistema autodestrutivo. Quando isso ocorre o objetivo maior de uma organização ou sistema, que é servir ao cliente, é substituído pelos interesses individuais. E isso faz com que as pessoas se sintam cada vez mais adoecidas, tristes e sozinhas.

     O Dr. W.E. Deming, considerado como o pai do milagre industrial japonês e da Qualidade, e inspirador do modelo de gestão de diversas empresas, entre elas a Toyota, afirma em seu livro “A Nova Economia para Indústria, o Governo e a Educação”1:
  “A pessoa nasce com motivação intrínseca, auto-estima, dignidade, cooperação curiosidade e alegria de aprender. Estes atributos são fortes no início da vida, mas gradativamente são esmagados pelas forças de destruição.”  Segundo ele, as forças da destruição são:


  • Distribuição forçada de notas na escola. Medalha.
    § Sistema de mérito. Julgamento de pessoas; colocando-as em escaninhos.
    § Competição entre pessoas, grupos e departamentos.
    § Pagamento de incentivos, pagamento por desempenho.
    § Objetivos numéricos, sem método.
    § Explicação das variâncias;
    § Subotimização. Todos os grupos e todos os departamentos tornam-se um centro de lucros.

     Deming também afirma que “estas forças causam humilhação, medo, autodefesa, competição pela estrela dourada, altas notas, alta classificação no emprego. Elas levam as pessoas a jogar para vencer, e não jogar por prazer. Elas eliminam a alegria da aprendizagem, a alegria no trabalho e a inovação. A motivação extrínseca (resignação completa a pressões externas) gradativamente substitui a motivação intrínseca, a auto-estima e a dignidade”.

     Quando falamos em quebrar o paradigma atual para um mais humano, como o difundido pelo Dr. Deming, muitas pessoas riem com total descrença sobre esta possibilidade. O que mais assusta nisso tudo é perceber como desacreditamos do amor, da cooperação em um ambiente de trabalho, do altruísmo e no trabalho para o bem comum. Acreditamos mais em nosso lado animal do que no humano em nós. Sabemos também que não é nada fácil implementar um sistema com estas características, e muitas são as dúvidas do “como fazer”. Mas não podemos aceitar a idéia que a competição e o egoísmo são mais poderosos em termos de resultado que o amor e a cooperação. Se acreditarmos nisso, estaremos duvidando de nossa própria essência.

      O trabalho cooperativo depende fundamentalmente do “princípio organizacional” que norteia o grupo e é de responsabilidade da alta administração. As pessoas estão ávidas por cooperar e criar, mas sem o desenvolvimento do presidente e da alta gestão das organizações, muito pouco poderá ser transformado.

      Um maravilhoso exemplo de solidariedade e cooperação aconteceu em 1992 em Seattle, EUA; algumas crianças estavam competindo em uma corrida de 100m rasos. Estas crianças eram portadoras de algum tipo de deficiência mental. No meio da corrida, um garoto caiu. Uma menina, portadora da Síndrome de Down, parou, deu um beijo no menino e disse: “pronto, agora vai sarar”. Os demais competidores também pararam para ajudar o menino e, de braços dados, cruzaram todos juntos a linha de chegada. Os expectadores aplaudiram de pé e tenho a certeza que jamais se esquecerão do que presenciaram – é interessante observar que as crianças que agiram desta forma tenham algum problema mental, uma vez que nossa sociedade competitiva valoriza mais o intelecto (a mente) do que o coração! E essas crianças com certeza são mais coração que cabeça.

     Muitas pessoas que chegam até meu escritório estão procurando por algo diferente, que dê sentido à suas vidas. Reclamam que o trabalho se tornou algo que não dá prazer, e que trabalhar passou a ser um verdadeiro martírio, em organizações que focam apenas resultados e tentam controlar tudo como se seres humanos fossem máquinas, e que acham estranho quando pessoas têm a sua produtividade cada vez mais baixa.

     A sustentabilidade não é algo isolado, algo fora de nós. Precisamos acreditar nas forças positivas da humanidade e começar a utilizá-las, colocá-las em prática. E não adianta esperar o governo ou os familiares ou nossos amigos mudarem. Cada um deve fazer a sua parte, a mudança é individual e deve nascer de dentro.

     Em você, em que modelo de forças realmente acredita? Como isso se revela em suas ações?

1 Deming, William E. – “A Nova Economia para a Indústria, Governo e Educação” – Ed. Qualitymark – Ed. 1997

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