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ADMINISTRAÇÃO POR RESULTADOS E SUSTENTABILIDADE
Por Hélcio de Castro Padrão - Consultor de Desenvolvimento

Hoje, cada vez mais observamos organizações seguindo uma tendência da chamada “administração por resultados”. Este tema virou moda e não é difícil observar estampado, nas empresas ou em seus sites, frases como esta: “aqui trabalhamos voltados para resultados”. Mas o que está por trás da administração “voltada para resultados”?

Quem nunca refletiu ou mesmo se incomodou com a celebre frase de Maquiavel, que os “fins justificam os meios”? De certa forma é esta crença que acaba prevalecendo na administração por resultados: buscamos um fim, uma meta, um resultado, e ao menor sinal de que este não será alcançado, começamos a manipular números, pessoas, o poder legislativo, etc. conforme nosso alcance e poder. O canadense Henry Mintzberg, autor do livro “Ascensão e Queda do Planejamento Estratégico” chamou isso de “Planejamento Determinista”, ou seja, após o planejamento se faz necessário manipular o meio ambiente para que tudo ocorra como o planejado. Este tema também foi abordado por W. Shakespeare em “Macbeth”, quando as três bruxas cruzaram o caminho deste personagem e previram que ele se tornaria o rei, e este acaba matando o rei para fazer cumprir a profecia.

Sobre esta frase, meu incômodo “maquiavélico” findou quando reconheci, pelas palavras de Gandhi, que meios e fins são a mesma coisa, e que o melhor meio trará o melhor fim. Ou seja, se você quer paz, aja com paz: “Não existe um caminho para a paz, a paz é o caminho”. Mas alguns governantes ainda optam por buscar paz na guerra. Basta olharmos para os resultados destas desastrosas intervenções militares, para concluir que Gandhi tinha razão.

E o que nos dizem alguns dos grandes mestres e alguns livros mais importantes da humanidade sobre o assunto:

Jesus Cristo disse, conforme a bíblia:
“Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna”. Jo 6, 22-29
O Mahabharata, o livro sagrado hindu, afirma:
“A virtude nunca deveria agir imbuída do desejo por seus frutos. Tal atitude afasta, na verdade, os resultados, da mesma forma que a dúvida sobre a eficácia da virtude. É certo que a verdadeira virtude sempre produz resultados gloriosos.”

No Bhagavad Gita, que integra o Mahabharata:
“Os que fazem seu trabalho com inteira devoção, em apego aos resultados, conseguem se libertar do nascimento e da morte atingindo a perfeição.”(2-51)

Um dos maiores nomes da administração moderna, principal responsável pela revolução industrial no Japão no pós guerra, e um dos pais do sistema designado “Qualidade”, Dr. W.E.Deming, descreve o seu 11º princípio (dos 14 princípios da Administração que ele desenvolveu):
“Abandone a gestão por objetivos com base em indicadores quantitativos:
a) Elimine padrões de trabalho (quotas) na linha de produção. Substitua-os pela liderança.
b) Elimine o processo de administração por objetivos. Elimine o processo de administração por cifras, por objetivos numéricos. Substitua-os pela administração por processos através do exemplo dos líderes.
A administração com base em objetivos numéricos representa uma tentativa de administrar sem conhecimento sobre o que fazer, e de fato acaba geralmente constituindo-se em administração por medo.”

Mas porque estes grandes mestres ou pessoas tão renomadas insistiram tanto nisso? Qual é a “verdade” por trás destes ensinamentos? Para responder estas perguntas vamos esbarrar em um dos principais temas da humanidade: a liberdade.

O ser humano deve buscar dentro de si a inspiração para atuar no mundo; criar uma representação clara, uma idéia de algo concreto que quer ver manifestado a partir de si, o que podemos chamar de uma Visão de Futuro. Esta visão deve mobilizar todo o seu querer para agir para esta finalidade. Agindo assim o ele não cumpre um dever, mas atua conforme suas convicções, sua intenção, e só assim ele pode ser livre. Quando ele encontra um segundo objetivo que não esse para sua ação, então ele age não pelo que acredita ou pelo que quer, mas visando outra compensação que ele espera receber. Não se encontra naquela ação o seu interesse, mas na recompensa que ela o proporciona. Então ele age de forma egoística, e sem liberdade. Como afirmou o filósofo Rudolf Steiner, em seu livro “A Obra Científica de Göethe” (p.117):

“O egoísmo atua sem liberdade. De maneira geral, qualquer indivíduo age sem liberdade ao cometer um ato por um motivo que não decorra do próprio conteúdo objetivo da ação. Executar uma ação por causa dela mesma equivale a agir por amor. Só age com genuína liberdade quem é levado à ação por amor, por dedicação à objetividade. O indivíduo incapaz dessa dedicação desinteressada nunca poderá considerar sua atividade como livre. Se esperamos que a ação do homem seja nada mais do que a realização do seu próprio patrimônio de idéias, esse patrimônio deve obviamente jazer dentro dele. È seu espírito que deve tornar-se produtivo”

Para quem julga tudo isso um idealismo, sem valor na vida prática, vale citar um trecho de uma reportagem com o tema “A Descoberta da Ambição”, publicada na revista Veja - edição 1945 - de 1º de março de 2006:

“A experiência mostra, no entanto, que quando a ambição é dissociada da busca apenas por dinheiro, as possibilidades de sucesso aumentam. Afinal, é muito difícil fazer bem algo de que não se gosta. Uma pesquisa feita pelo especialista em marketing Mark Albion confirma a tese. Há vinte anos, ele perguntou a 1500 jovens que concluíram um MBA o que iriam fazer da vida. Oitenta e três por cento responderam que, finalmente, se dedicariam a “ganhar dinheiro”. Outros 17% afirmaram que se dedicariam a algo que lhes desse “satisfação e realização pessoal”. Hoje, dos 1500 jovens, 101 são milionários e, destes, 100 pertenciam ao grupo dos 17%. Portanto, parece que o segredo para ter sucesso material é não concentrar nele.”

Não pretendo aqui fazer nenhuma apologia contra resultados, até porque o lucro é que sustenta a condição básica para o servir – operando com prejuízo qualquer organização vai à falência e não serve a ninguém. Mas os resultados são consequência e não o fim da ação. O resultado serve de espelho que reflete a qualidade dos meios utilizados. Quando um ser humano serve com amor, realmente voltado para as necessidades do seu cliente, este último reconhece e o remunera, pois necessita de seus préstimos e tem interesse na sua sobrevivência.

Os líderes da atualidade devem rever suas posturas. Ao invés de uma administração voltada para resultados, deveriam se preocupar em uma administração voltada realmente para atender aos seus clientes. E isto somente acontece através da busca constante pela melhoria em toda a organização, com o envolvimento de todos, quando a busca da coerência dos meios, em relação ao que se busca realizar, seja o foco. E é uma das principais funções dos líderes inspirarem seus colaboradores para atuarem de forma inteligente e alegre, concentrados de forma incansável na realização da visão de futuro estabelecida pela instituição; aqueles que compartilham desta visão, serão parceiros nesta empreitada.

A sustentabilidade não pode existir enquanto as pessoas agirem apenas de forma egoísta, com foco nos resultados de suas ações. Somente através de uma atuação livre e amorosa, através da cooperação e da união de forças, é que podemos mudar nossa civilização e as condições de nosso planeta.

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