NOTÍCIAS & ARTIGOS
Assessoria em Recursos Humanos
LIDERANÇA E METAS NUMÉRICAS
Hélcio de Castro Padrão
Consultor Parceiro da Ação Gerencial
As organizações têm encontrado inúmeras barreiras na busca de integrar pessoas e direcioná-las para realmente servir o cliente. Sempre que os resultados não agradam a alta gestão estabelece metas cada vez mais elevadas, muitas vezes impossíveis de serem alcançadas, instituindo a administração da pressão e do medo. Agimos assim porque não desenvolvemos habilidades para motivar as pessoas no trabalho.
As avaliações de desempenho, tão importantes nas organizações, também têm servido de instrumento de cobrança sobre os colaboradores, trazendo mais desmotivação. E isso tudo reforça o clima de medo e desconfiança.
Convido o leitor a uma reflexão profunda em sua organização, para formar uma imagem mais real sobre a empresa em que está inserido; busque tornar mais evidente suas respostas trazendo exemplos que as comprovem.
- Nossa empresa atua de forma cooperativa?
- As pessoas e as equipes se ajudam mutuamente e atuam com harmonia para resolver as questões que surgem?
- Nossa empresa está mais voltada para metas numéricas, ou para compreender e atender as necessidades reais dos clientes?
- A avaliação de desempenho auxilia na formação do espírito de equipe e de cooperação mútua, um apoiando o desenvolvimento do outro, ou é mais um instrumento que tem sido utilizado para pressionar pessoas e que acirra o espírito de competição?
A partir destas conclusões podemos nos perguntar – mesmo que sua empresa seja uma exceção a esta regra: por que não conseguimos motivar pessoas, trazer o espírito de cooperação ou mesmo focar nas reais necessidades de nossos clientes e melhorar significativamente os resultados?
Precisamos então investigar os métodos de gestão que temos utilizado. E as metas numéricas têm um grande peso nisso tudo, que tiram o foco do cliente.
As avaliações por metas numéricas de produção fazem com que as pessoas tenham uma única preocupação: fazer, fazer e fazer. Aquele que pensa não faz e por isso não bate a meta do mês. Aí será mal avaliado e terá sua remuneração diminuída ou mesmo correrá risco de ser demitido. O mesmo acontece com aquele que quer socorrer um colega na busca de atender o cliente: “se desviar de minhas funções posso ser mal avaliado; daí não pode cooperar”. As metas numéricas fazem sucumbir à necessidade e a vontade de servir, inerentes de todo ser humano.
A administração por objetivos numéricos tem causado outros problemas nas organizações: é comum a desconfiança na manipulação de dados nas apresentações de resultados. Não é difícil esbarrar com empreendedores que desconfiam de seus próprios sócios. O medo de apresentar números ruins é enorme. Seria um atestado de incompetência. Daí é melhor dar um “jeitinho”.
Um dos grandes problemas das metas numéricas é que muitas vezes a responsabilidade dos resultados de uma organização tem muito mais a ver com o sistema de produção adotado pela alta gestão – seja na indústria ou no serviço -, do que nas pessoas da linha de frente. Leis estatísticas comprovam que todo sistema carrega em si uma potência. E ele atua dentro de certos limites. A melhoria de uma produção requer muito mais inteligência aplicada do que trabalho duro, numa “fazeção” desenfreada. É importante instituir a nova cultura, voltada para o a construção conjunta, cooperativa, onde o medo é substituído pelo espírito de equipe e a confiança mútua. Nossos resultados estão ruins? Em vez de punir ou buscar culpados, podemos nos perguntar “o que podemos fazer para melhorar nosso sistema?”
As empresas com foco no longo prazo devem urgentemente buscar uma forma de quebrar este paradigma.
Muitas pessoas me perguntam se uma administração mais humanizada seria possível, e se neste modelo as pessoas iriam produzir, ou mesmo se o medo não é algo necessário. Percebo então uma grave situação da humanidade nos tempos de hoje, pois estamos perdemos a esperança no amor, na compaixão e no real interesse em servir. Ou talvez a palavra amor esteja sendo mal interpretada. Pois amor verdadeiro é aquele que estabelece limites claros, busca uma dedicação altruísta no desenvolvimento do outro, se compromete com a verdade e atua a partir de um enorme senso de responsabilidade. Se pensarmos que as forças negativas como medo e insegurança contém mais força do que as forças positivas, então não nos restam muitas saídas.
A administração pelo medo também gera resultados, temos que reconhecer, mas é limitada. O problema é que nossas lideranças realmente não sabem como fazer diferente. Sabemos que uma mudança não deve e não pode ser feita num estalar de dedos e que o caminho é difícil e tortuoso. Uma mudança brusca, sem o devido preparo das lideranças, pode colocar a empresa em risco.
A prática nos tem demonstrado que outro caminho é possível. É rico ver pessoas se ajudando e vibrando ao descobrirem que podem criar e que possuem potencial para resolver problemas de forma brilhante, com saídas simples e extremamente eficientes.
Todo artista quer expressar sua alma, e temos que criar um clima na organização onde as pessoas possam se realizar plenamente.
Os números na empresa são de extrema importância. Não podemos aprender sem reconhecer como fazemos, e grande parte desta realidade é revelada pelos números. Não existe gestão sem números. Mas precisamos aprender a interpretar os números e saber lidar com pessoas a partir do que conseguimos enxergar. Quando a liderança apresenta dificuldade de lidar com pessoas tende a se apoiar no mais concreto, ou seja, nos números e estes passam ser o “fim” da organização e não mais servir ao seu cliente.
O que caracteriza um organismo, é que todas as partes se mobilizam para o bem do todo. Se uma parte for mal o organismo corre risco de morte. E aí vem uma pergunta crucial: quem é o responsável pelo princípio organizacional? O princípio organizacional é emanado pela alta gestão, e somente a esta tem poder para alterar o sistema. E aprender ouvir a voz do cliente é fundamental, pois é ela que vai nortear estas mudanças. Não é simples o processo e não existe milagre. Mas precisamos aprender a trabalhar de forma inteligente, dentro do ciclo de observação, mudança e padronização, pois é neste último que a mudança pode tomar forma.
Hélcio de Castro Padrão
Consultor Parceiro da Ação Gerencial